Quando a vista era bela…
Bia Botana
Ao final do século XIX, bem distante do agitado centro da cidade de São Paulo, uma paisagem bucólica parecia saída de um quadro do notável pintor inglês John Constable (1776-1837). Nas belas chácaras aprazíveis ao modo europeu, os bosques reminescentes da Mata Atlântica vicejavam com sua rica flora, que era atrativo natural para as mais formosas borboletas e o lar de uma passarada colorida e barulhenta
digna do imaginário de um paraíso na terra.
Uma dessas chácaras pertencia a uma família portuguesa dos Açores, e seu patriarca era José Paim Pamplona, cujo o casarão da família ficava à rua Frei Caneca, onde o clã residia desde 1880. A família muito católica ergueu num outeiro uma capela singela em honra do Divino Espírito Santo, devoção trazida da terrinha natal, e de
onde se via as copas das árvores descerem como uma cascata verde até o fundo de um pequeno vale.
Caminhando pela rua Frei Caneca subindo para o cume do morro chegava-se a uma estrada de terra bem batida por onde passava a boiada em tropel levantando poeira, enchendo o ar com seu sons
característicos de cascos, mugidos, berrantes e gritos dos boiadeiros. O
pobre gado fazia a passagem para o seu derradeiro destino no matadouro da vila de Santo Amaro. Também se poderia ouvir o chiar das rodas dos carros de boi carregados de mercadorias e de latões de leite fresco, os quais depois seriam levados de casa em casa em carrocinhas puxadas por burros ou cavalos.
A este tempo, a região também oferecia com seus arbustos fechados esconderijos seguros aos escravos negros fugidos, muitosdeles protegidos pelos estudantes abolicionistas das arcadas da Faculdade de Direito São Francisco de São Paulo, que fora criada por decreto imperial assinado a 11 de agosto de 1827, por Dom Pedro I, e
foi pois a primeira instituição de ensino superior do Brasil, e o fim daobrigatoriedade dos brasileiros cursarem Direito na cidade Coimbra, em Portugal.
Os alunos da nova faculdade seriam célebres intelectuais vanguardistas, sempre motivados a transformar o mundo num lugar melhor, com uma paixão pela liberdade digna do poeta inglês seiscentista John Milton.
Antes da virada do século, apesar da princesa Isabel ter proclamado a Lei Áurea e libertado as ultimas gerações de escravos africanos de um história abominável de 300 anos servidão desumana, o movimento republicano que vinha na esteira da defesa da abolição, virou a mesa e implantou na calada da noite a República.
A pobre princesa Isabel dormiu com uma tiara imperial e acordou como uma
burguesa sem fortuna. Há que se pensar que foi um destino melhor do que sua parente distante a pobre rainha da França Maria Antonieta, que perdeu a cabeça numa guilhotina. Dom Pedro II, que honra seja feita, tanto fizera pelo seu amado Brasil para garantir as melhores condições para que adentrasse na modernidade com toda dignidade possível, viu-se subitamente umimperador sem trono, cetro, manto e coroa, atraiçoado por um marechal do exército brasileiro, que liderou o golpe e tomou o poder, ocorrido na surdina de um ambiente fechado, como bem escreveu
Hermes Vieira no livro “Princesa Isabel, uma vida de luzes esombras” (1989): “Daí ter tudo ocorrido de forma como registrou a História, naquela manhã de 15 de novembro de 1889, sem correria, sem tumulto, sem o mais leve protesto de quem quer que fosse; também sem passeata, sem o povo que dissesse sim ou não."
Dom Pedro II ocupou o trono por 58 anos e foi banido de modo ignóbil com toda sua família, sem poder levar seus bens, nada além das roupas do corpo. Uma humilhação desnecessária e ignóbil. A imperatriz não resistiu e veio a falecer em Portugal a 28 de dezembro daquele mesmo ano, o imperador teve que contar com a bondade de
bons amigos como o visconde português Alves Machado que o acolheu com carinho e dedicação, e dispôs de sua fortuna para que o Imperador vivesse com dignidade até seus últimos dias na França, os quais não seriam muitos, vindo a falecer aos 66 anos em Paris no dia 5 de dezembro de 1891, devido a uma pneumonia.
Assim, nasceu a República brasileira de orgulho para alguns e de muita vergonha para outros. Enquanto isso, os Estados Unidos da América rejubilavam-se, pois com suas táticas conspiratórias afastara das Américas a ameaça nefasta da monarquia européia. Pois, o Brasil era a única Nação americana com coroa imperial real remontando a mais de 600 anos e com longa tradição nobiliárquica européia.
A Doutrina Monroe norte-americana de 1823, com seu lema “a América para os americanos” seguiria com sua trajetória servindo ao processo intervencionista e expansionista dos Estados Unidos, passando sempre por cima de quem ficasse à frente de seus propósitos, e, afinal, o Brasil
era destinado a ser o “quintal” deles e não dos europeus. Uma lógica cruel que ainda se perpetua nos dias de hoje.
Por sua vez o Brasil que já tivera antes a Leopoldina, a primeira imperatriz do Novo Mundo como governante (1822) e a Isabel, por três vezes princesa regente do Império de proeminência politica, comparável a exercida pela Rainha Victoria do Reino Unido (1837 -1901), e exatamente devido ao sucesso politico alcançado na ultima regência de 1887 a 1888, se temeu que ela viesse a tornar-se imperatriz coroada, sendo esta a causa mais profunda para que se
implantasse a Republica, a qual imposta pela força constrangeu qualquer retorno à monarquia parlamentarista, dando origem a um coronelismo que lançou a base da sociedade patriarcal, de tendência misógina e de opressão às mulheres.
Vai ser durante o período da implantação do governo republicano, que o engenheiro uruguaio com grande tino para os negócios, chamado Joaquim Eugenio de Lima (1845-1902), reuniu-se com João Borges de Figueiredo e João Augusto Garcia para empreender a comprar das terras entre o rio Tietê e o rio Pinheiros para um projeto urbanista de exploração imobiliária de grande envergadura na cidade de São Paulo. Em 1890 adquiriram a rua Real Grandeza por onde passava a boiada que era de propriedade da família Paim Pamplona e
no mesmo ano as glebas restantes do genro de Paim Pamplona. Com compra da Chácara Bella Cintra, que dava nome à região, pertencente a Cândido de Morais Bueno, o grupo de empreendedores já tinham área suficiente para apresentar um plano inovador de uma bela avenida com três quilômetros de cumprimento e doze metros de largura com lotes vastos para a construção de mansões magnificentes. O projeto foi levado ao presidente do conselho de intendência da cidade de São Paulo, Clementino de Souza Castro, cujo pomposo titulo do cargo equivaleria ao titulo de prefeito da cidade.
Ora, Clementino de Souza Castro era irmão da viúva do Barão de Itapetininga, José Joaquim dos Santos Filho. Corina enviuvara em 1876, herdando a “Chácara do Chá”, e outras tantas terras do vale do rio Anhangabaú. O nome de Anhangabaú que em tupi-guarani significa “águas venenosas” foi dado pelos índios ao rio, considerado
maldito suas águas férreas e ácidas, nada saudáveis à saúde, mas, ao que se saiba os agriões e o chá do Barão de Itapetininga nunca tiveram queixas das águas do rio.
O arquiteto francês Jules Martin concebeu um projeto em 1877, que pretendia rasgar as terras da “Chácara do Chá” para que a cidade então contida no chamado Triângulo formado pela rua São Bento, XV de Novembro e rua Direita, pudesse se expandir do Largo da Patriarca e atravessar o vale para o lado oposto.
Apesar de contrariar imensamente a baronesa viúva, com o novo status patriarcal assumido por seu irmão, o projeto realizou-se em 1892. Assim, quando Joaquim Eugenio de Lima apresentou seu plano, Clementino de Souza Castro o recebeu de braços abertos. O projeto atendia aos seus planos de embelezamento de cidade ao modo como se via em Paris, com seus belos boulevards arborizados.
Os trabalhos começaram de imediato, o plano da nova avenida foi elaborado pelo agrimensor Tarquino Antonio Tarant e como deveria ser plano foi preciso fazer um aterro para nivelar o vale. A nova avenida foi inaugurada a 8 de dezembro de 1891, entregue com os trilhos para os bondes puxados por cavalos – pois os bonde elétricos chegaram apenas no ano seguinte –, e uma pista para os cavaleiros e belas calçadas onde foram plantadas árvores de ipês e acácias. Quando sugeriram que a avenida tivesse o nome de Avenida das Acácias ou Prado de São Paulo, conta-se que Joaquim Eugenio de Lima se empertigou todo e de peito cheio proclamou: “Será Avenida Paulista, em homenagem aos paulistanos!” Ali estava um vero
paulistano de todo coração!
Um dos tantos estrangeiros que chegavam à cidade de São Paulo em busca de uma oportunidade de fazer fortuna e encontravam sua Pátria foi o francês Paul Villon foi responsável em 1892 pelo paisagismo de um belo parque, que ficava bem ao meio do caminho da avenida. Seu paisagismo conservou um lindo bosque de Mata Atlântica, que permanece intacto milagrosamente até os dias de hoje. O local muito aprazível foi nomeado Parque da Cidade, e passou a abrigar as festas populares e os saraus.
Poucos anos depois, em 1898, procedeu-se a primeira reforma da Avenida Paulista, para colocar um novo calçamento e alargamento das vias, sendo necessário a derrubada de duas fileiras de árvores. E as melhorias não pararam, em 1909 foi a primeira avenida asfaltada de São Paulo com material importado da Alemanha. O arquiteto Ramos de Azevedo seria o responsável pela construção de um belo belvedere do lado oposto ao Parque da Cidade, que em seu conjunto dava vistas para o mesmo pequeno vale que se avistava da singela capela do Divino Espírito Santo, que desde 1908 se tornara uma bela igreja.
A obra iniciada em 1914 foi inaugurada em 1916, e recebeu o nome de Esplanada do Miradouro, ou apenas Belvedere, em 12 de junho de 1916 a inauguração se deu no restaurante luxuoso instalado em suas dependências de propriedade do imigrante italiano Vicente Rosatti, chamado “Salão Trianon”, dada a semelhança arquitetônica com o Grand Trianon, o palacete construído por Luiz XIV da França, o Rei Sol, sob sua supervisão e a seu gosto, próximo do Palácio de Versailles onde residia, inaugurado em 1687.
No dia seguinte à inauguração o jornal "O Estado de São Paulo" assim descreveu a festa: “O Sr. Dr. Washington Luís, prefeito da cidade, recebeu os convidados, à entrada do Miradouro”, no luxuoso restaurante e nos salões;” montados com fino mobiliário, ricos
espelhos e todos acessórios indispensáveis a um estabelecimento de primeira ordem”; champagne, licores, doces e ‘croquettes" eram servidos aos convidados representantes das distintas famílias da nossa melhor sociedade."
Como só se podia esperar, o local se tornou em pouco tempo o “point" da alta sociedade paulistana patriarcal da belle époque, cuja
agitada vida social em torno do Belvedere Trianon está bem documentada nos jornais daquele tempo. Festas, concertos, bailes e
um “five o’clock tea” eram uma constante na década de 1920, em pouco tempo o Parque da Cidade, passou a se chamar Parque Trianon, bem que tentaram lhe mudar o nome, mas nunca foi do gosto de
ninguém. Se alguém perguntar hoje onde fica o Parque Siqueira Campos, é certo que a resposta será um “não sei”, mas se perguntar-se o local do Parque Trianon, não há quem não saiba dizer onde é.
Em 1938 o prefeito Prestes Maia aprovou o plano de canalização do rio Saracura e do córrego Iguatemi, para que desse lugar à construção de uma nova avenida que ligasse o centro da cidade de São Paulo à região da vila de Santo Amaro, para tanto foi construído um túnel duplo de 450 metros de comprimento debaixo do mirante do Trianon, da Avenida Paulista e do Parque Trianon, que foi inaugurado em 23 de julho de 1938. Para celebrar a revolução constitucionalista de 1932 o nome dado à avenida foi Nove de Julho e o túnel chamou-se também apenas "túnel da Nove de Julho” e assim é
chamado até hoje, se tem outro nome ninguém sabe qual é.
Pois bem, ali em cima do túnel passava uma pequena rua que vinha da rua Peixoto Gomide e ia para a Rua Itapeva que fazia parte do projeto do mirante de Ramos de Azevedo, e esta rua chamava-se Ester, mas este nome não perduraria. No ano de 1833, chegou ao Rio de Janeiro da Itália, um médico jovem que combateu a epidemia da febre amarela e quase sucumbiu a
ela. Depois, juntou-se aos abolicionistas e cuidava abertamente dos escravos. O médico italiano em busca de um melhor destino que mudou-se para São Paulo em 1890, onde criou a primeira casa de
saúde da cidade, o bom médico italiano faleceu aos 96 anos e em 1949 virou nome de rua: Rua Carlis Comenale.
Com a República a sociedade patriarcal passou a dominar com rédeas firmes a sociedade brasileira e desconsiderou os modernismos trazidos na passagem para o novo século. Nada mudaria tão cedo.
Sobre essa estranha condição, como bem escreveu o poeta mineiro
Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987):
“O retrato não me responde
ele me fita e se contempla
nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam
os parentes mortos e vivos.
Já não distingue os que se foram
dos que restaram.
Percebo apenas a estranha ideia
da família viajando através da carne.”
Aroldo de Azevedo ao escrever sobre um dado patriarca paulistano o descreveu assim: ”Era o patriarca de um grupo de
famílias. (…) Era o Pai, o Sogro, o Avô; mas antes de tudo o amigo, o conselheiro. Jamais alguém ousou desrespeitá-lo, no lar ou fora dele." Sem dúvida esse era o lado “A” dessa figura paternalista, mas e o lado
"B"? Venerada e temida a figura patriarcal tinha o poder e o direito de controlar a vida e as propriedades de sua mulher, filhos e eventuais (disfarçadas) amantes e seus bastardos apadrinhados, afilhados,
agregados, serviçais e todo e qualquer um que caísse na sua rede de poder, ninguém o subestimaria, nem contestaria e nem mesmo faltar-lhe-ia com o respeito, jamais, pois o preço a pagar por tal ousadia seria alto demais para qualquer um abaixo de sua posição de poder.
Do mesmo modo que um senhor feudal ou de um chefe mafioso siciliano a figura patriarcal dominaria de maneira implacável fosse ele português, italiano, espanhol, britânico, francês, alemão, japonês, judeu, libanês, turco ou sírio todos sem excessão abraçariam com prazer o modus viventes da sociedade patriarcal brasileira, especialmente a paulista, onde os imigrantes abundavam.
Em 1887, na cidade de São Paulo, a média de italianos para paulistanos era de dois para um, isso mesmo o numero de italianos dominava o cenário, e além disso faziam fortunas.
No apagar das luzes da sociedade tradicional paulistana o advogado e engenheiro Luiz Gonzaga da Silva Lemos (1852-1919) – aparentado distante de Pedro Taques de Almeida Paes Leme, que escrevera no século XVIII a Nobiliarquia Paulistana, abandonou sua posição de engenheiro chefe de construção da estrada de ferro
bragantina em 1898, e, sabe-se lá sobrevivendo como, ele passou a se
dedicar à pesquisa genealógica das famílias paulistanas dando continuidade à obra de seu ancestral. De 1903 a 1905 foram publicados os 9 volumes num total de mais de duas mil páginas com os nomes de 52 famílias fundadoras da cidade de São Paulo e seus descendentes. A Genealogia Paulistana virou a bíblia do “quem era quem" na sociedade tradicional paulistana dando àqueles que tinham seus nomes ali registrado uma espécie de “pedigree”, um passaporte invisível de entrada ao melhor desta restrita sociedade patriarcal orgulhosa dos áureos tempos dos barões do café
agraciados com seus títulos da nobreza brasileira conferidos pela coroa imperial.
A sociedade patriarcal brasileira, que durante as décadas de 1930 a 1954
encarnara o personagem de Pai da Pátria, o ditador Getúlio Vargas, que poderia ter até se reeleito pelo voto democrático após a fase
ditatorial, mas nunca perderia a pecha de ditador. O infeliz encontraria sua derrota num mar de lama de corrupção e a fim de salvar o que lhe restava de honra tirou a própria vida num ato de dramaticidade ao se dar um tiro no coração no dia 24 de agosto de 1954, encerrando seus dias aos 72 anos com covardia, como é tão típico dos opressores.
Getúlio acreditava piamente sair do mundo para passar para a História do Brasil, mas esqueceu que a memória humana é curta, e morto o rei, já se dá vivas ao novo rei! E o novo rei era Jucelino Kubitscheck, o
presidente “bossa nova”. Jucelino era bisneto de imigrantes tchecos, nascido em 12 de setembro de 1902, em Diamantina, Minas Gerais. Só ele ter nascido
no mesmo dia que eu era razão mais que suficiente para eu nutrir uma grande simpatia por ele.
Um presidente elegante e que vivia voando pelo Brasil. E, pela primeira vez os brasileiros tinham um presidente itinerante sempre
acenando da porta do avião para as multidões, num gesto que imortalizou a simpatia de sua imagem presidencial, e que foi muito imitado por seus sucessores, mas jamais vieram a ter o mesmo carisma
que ele tinha.
Os festejos das bodas de prata da Revolução Constitucionalista ocorreu em 1957, a data de 9 de julho, ainda não era um feriado estadual, mas o jubileu dos 25 anos merecia
especial celebração. Naquele ano ao raiar do dia foram disparados tiros de canhão e toques de clarins se fizeram ouvir no Obelisco do Mausoléu aos Heróis de 1932, localizado no Parque do Ibirapuera, recém inaugurado em 9 de julho de 1955.
Os graves problemas econômicos de 1929 trazidos pela queda da Bolsa de Nova York, arrasou a sociedade patriarcal dos coronéis do café e trouxeram grandiosas instabilidade politica ao Brasil. O movimento político-militar Tenentista juntou-se ao da Coluna Prestes, ambos movimentos de esquerda (1920 a 1924) e formaram a base do partido da Aliança Liberal, que não contou com o apoio de Luis Carlos Prestes, pois ele aderira ao comunismo. A Aliança Liberal criada em 1929 tinha como líder Presidente do Rio Grande do Sul, ex-sargento de infantaria Getúlio Dornelles Vargas, que aos 43 anos fizera uma carreira política meteórica, com uma escalada de cargos políticos iniciada em 1909.
Na eleição à presidência da República de 1º de março de 1930, a Aliança Liberal perdeu, mesmo pregando a justiça trabalhista, o voto secreto e o voto feminino, isso mesmo, as mulheres ainda não tinham direito a voto. O vencedor foi o representante da tradicional sociedade patriarcal, o Presidente de São Paulo, Julio Prestes foi eleito pelo voto popular com mais de 300 mil votos que seu concorrente, todavia passaria para a História como o único presidente eleito impedido de tomar posse.
Um levante comandado por Vargas promoveu o golpe armado de
Estado, que o instalou no poder. Com a chefia do “Governo Provisório”, em 3 de novembro de 1930, Getúlio não só declarou o fim da “República Velha” e destituiu a Constituição vigente, como
distribuiu as presidências dos Estados Federativos entre os seus amigos tenentistas, o que foi um desastre, pois muitos não tinham a menor competência para governar. Assim, em 1932, os paulistas e seus aliados pegaram em armas contra as tropas de Getúlio, que usurpara a Presidência da República, e exigiam um governo democrata com uma nova constituição.
A passagem dos carros de bombeiros vindos do obelisco do Ibiraquera para o centro da cidade saindo do túnel da Av. 9 de Julho abaixo da Av. Paulista era um momento feérico. E quando de longe começamos a ouvir as sirenes, holofotes estrategicamente colocados se ascenderam nas saídas dos túneis e assim que os carros de bombeiros iluminados com suas luzes vermelhas e faróis fizeram a entrada triunfal na
avenida no ano de 1957, uma chuva de estrelas inesperada caiu do céu noturno, num show pirotécnico formidável que deixou- a todos maravilhados. As estrelas foram lançadas de aviões mono-motores, os famosos “teco-teco" Paulistinha da campanha “Asas da Juventude" da Segunda Guerra Mundial, que eram fabricados por Francisco “Baby" Pignatari, dono das Indústrias
Pignatari, neto do Conde Francesco Matarazzo, que revivera a chuva de prata do IV Centenário da cidade. O próprio Baby estava pilotando um dos Paulistinhas e dando rasantes.
Nas estrelas de papel alumínio platinado se podia ler:
"1932 - 1957
As Indústrias PIGNATARI sentem a satisfação de repetir neste 9 de
Julho que elas são tudo aquilo que o povo paulista quis que elas
fossem."
Sobre essa chuva de prata o radialista da Rádio Record, Randal Juliano assim a descreveu naquele ano:
“O sentimento do paulista faz
com que a cidade se locomova até o Viaduto do Chá. E aqui a multidão ergue os olhos para o céu, de onde caem laminas metalizadas… Os holofotes do exército as fazem brilhar com esplendor… Traduzindo a alegria do povo paulista neste nove de julho, que comemora uma derrota… Talvez tenha sido o único povo a comemorar uma derrota."
O radialista se referia na derrota infligida pelas tropas federais de Getúlio Vargas aos insurgentes paulistas e aliados Todavia seria em razão da Revolução Constitucionalista de 1932, que Getúlio teria sua tirania contida e se viu obrigado a aprovar a nova Constituição de 1934 redigida por uma Assembléia Constitucional, nesta o voto
feminino foi incorporado como “facultativo" (sic.), só no código eleitoral de 1965 voto feminino foi equiparado ao dos homens. Mas,
infelizmente, o governo Constitucionalista de 1934 a 1937, teve seu fim com as reviravoltas da política mundial ao início da Segunda
Grande Guerra, dando a Getúlio a motivos suficientes para ele instalar sua ditadura, impondo uma nova constituição, a de 1937, uma carta autoritária elaborada e redigida em sua maior parte pelo então ministro
da Justiça Francisco Campos (1891-1968), ele mesmo um antiliberal e adepto do autoritarismo, e inspirado no sistema semi-fascista polonês, esvaziou o poder legislativo e subordinou a justiça aos desmandos do
executivo, e assim foi fundado o chamado Estado Novo. Não seria de espantar que o mesmo Francisco de Campos seria responsável pelo arcabouço jurídico que veio a dar legitimidade ao golpe militar de
1964, sendo ele o arquiteto dos primeiro Atos Institucionais e da Constituição de 1967 de triste memória.
Homem elegante e homem do mundo, o mineiro Juscelino Kubitscheck fazia bonito promovendo as relações exteriores do Brasil a um patamar bastante eclético, e viria inclusive a receber em 1959 o revolucionário comunista Fidel Castro, que tomara Cuba em 1958, o que causou total desgosto para os Estados Unidos que perdera sua ilha de delícias e para o total desgosto da direita brasileira. Mas, os comunistas brasileiros foram ao delírio. Se havia uma coisa que Jucelino se provou ser especialista era na arte do equilibrismo, sabendo manter
com maestria um pé em cada canoa.
Intrépido, o novo presidente decidira construir uma nova capital, Brasília, no coração do Brasil, crendo piamente num sonho profético de Dom Bosco, que dava a entender que por ocasião da exploração das riquezas escondidas no Planalto Central brasileiro surgiria ali a terra prometida, onde jorraria leite e mel. Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960, mas dela não jorrou ainda leite e mel, mas, sim, fel, do amargor de uma ditadura militar que duraria de 1964 a 1985, deixando difícil de se livrar.
Em meio as mudanças, os arredores da Avenida Paulista espelhava as transformações da cidade de São Paulo.
Contudo o parque Trianon continuaria verdejante. A escadaria ainda
levava ao outeiro da singela Igreja
do Espírito Santo, então pintada de amarelo e branco, cercada pelo pátio belvedere de onde se descortinava os telhados das casinhas e os jardins de algumas mansões que desciam ao vale do rio que dera lugar à avenida movimentada que ligava a nova região dos Jardins ao Centro da cidade.
Pertinho de lá as mansões dos industriais paulistanos perfilavam-se na Av. Paulista opondo-se ao antigo bairro dos Campos Elísios dos coronéis do café. Uma nova elite social foi fundada quando o dinheiro mudou de mãos. Casas de “haute couture” como a de Madame Rosita, ou a boutique Scarlett, onde o estilista brasileiro Dener
Pamplona de Abreu já começava a despontar, e depois a Casa Vogue rivalizavam-se trazendo o frisson da moda europeia às vaidosas paulistanas, que até então se serviam do Mappin no centro da cidade para ter acesso ao luxo da moda importada.
Surgiu o café society, os “grã-finos”, uma referência aos grãos de arroz de alta qualidade e uma alusão a alcunha de “arroz de festa”, e também dita “granfinagem” para se referir aos bem nascidos quatrocentões paulistas e todos aqueles que eram bem-vindos ao convívio deles: os estrangeiros ricos ou milionários, artistas, intelectuais, escritores e pintores. Na verdade
eram apenas pessoas que levavam uma vida com mais glamour, com festas e eventos culturais num tempo em que a vida na paulicéia fervilhava sob o comando de casais como Yolanda Penteado e Ciccillo Matarazzo. Ela uma socialite representante digna do sociedade paternalista tradicional paulista dos barões do café, nascida na bela fazenda Empyrio, no município de Leme, e ele ninguém mais do que o filho do velho Conde Francesco Matarazzo, o italiano mais rico do Brasil e também a maior fortuna italiana fora da Itália. O casal foi responsável pelo lançamento da primeira Bienal de São Paulo em 1951, no Grand Trianon e depois patrocinariam o fim do Belvedere e em seu lugar foi erguido o MASP - Museu de Arte Moderna de São Paulo.
A vista foi deixando de ser bela para ser engolida por espigões que se erguiam um após outro, onde eram antes as mansões dos milionários, a maioria deles estrangeiros. Os bondes deixaram de circular nos trilhos da Paulista, os bondes abertos causa de muitos romances desapareceram e a rua dos amores passou a ser a chamada Augusta.
No transcorrer das próximas décadas a Paulista viria a ser palco não mais da história paulistana mas do Brasil, e se tornaria o novo coração pulsante político e econômico brasileiro conquistando o mundo como principal centro urbano da América Latina, como também um dos maiores centros de gastronomia da culinária mundial, sempre com uma agenda lotada de eventos culturais e empresariais. A pujança da Paulista ilhou a Igrejinha do Divino Espírito Santo, todavia suas missas aos domingos são concorridas e lotada por alegres católicos que celebram a vida de Jesus. E quem diria ser possível que paulistanos tão ocupados dariam um tempo para fazer uma “rezinha” na missa vespertina das 17:30 horas, antes do “happy hour” nos charmosos barzinhos em sua redondeza. Porquanto, para os paulistanos paira dúvida alguma que Deus faz o impossível até nos detalhes, e que esta é uma terra de prosperidade para quem trabalha com fé, e o “fica com Deus” aqui é tradição enraizada em todos corações esperançosos em dias melhores, pois muita gente aqui já comeu o que o diabo amassou, e “graças a Deus” não come mais, e por isso agradece a Deus.

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