PARA NÃO ESQUECER
Eu nunca vou esquecer o dia 8 de janeiro de 2023, quando uma multidão de parco tamanho de manifestantes de extrema-direita, que estivera acampada em frente ao “Forte Apache” – apelido do QG do Ministério do Exército Brasileiro na Asa Norte em Brasília –, desceu a Esplanada dos Ministérios, não pelo acesso da pista ao lado da Catedral de Brasília como de costume às manifestações populares, mas pela via que acessava o Palácio do Planalto, só ver isto eu pensei: “Tem algo errado!”
Era um domingo, e quem já residiu em Brasília sabe, é um dia “morto”. A Esplanada estava vazia. A posse do 3° governo de Luiz Inácio Lula da Silva transcorrera com normalidade no dia 1° de janeiro de 2023. Após a posse o Congresso, o Executivo e o Judiciário retornaram ao costumeiro recesso e só retornariam às suas atividades normais ao início de fevereiro. É como se durante esse período a Praça dos Três Poderes dormisse, apesar do trabalho frenético que ocorria nos Ministérios, mais ativos do que nunca com a preparação da engrenagem gigantesca do Estado brasileiro para o novo governo, de diretrizes amplamente diferentes do governo que o antecedera.
Os canais de TV postaram suas câmeras móveis para fazer o acompanhamento da multidão de derrotados envoltos cabisbaixos em bandeiras do Brasil e com suas camisas amarelas da seleção de futebol do Brasil, que também fora derrotada na Copa do Mundo de 2022. Havia um estranho silêncio, daquele tipo que na natureza antecede a tempestade.
Tudo aconteceu muito rápido e quando os apoiadores do ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro chegaram à Praça dos Três Poderes, eles se dispersaram como enxames de vespas ou marimbondos em direções diferentes, numa estratégia de ataques surpresa bem estudada, e, de um momento para o outro, se dividiram em três grupos. Um avançou subindo a rampa e invadiu o Palácio do Planalto, outro grupo invadiu o Congresso Nacional e último invadiu o Superior Tribunal Federal. As imagens anteriores de uma multidão antes ordeira e pacífica, fazendo uma manifestação democrática, deram lugar a cenas brutais de vandalismo e atos inimagináveis de desrespeito com as instituições democráticas brasileiras.
Nunca eu vou conseguir esquecer tamanha demonstração popular anti-patriótica e anti-democrática. O mais estranho de tudo era saber que foram os militares saudosistas do tempo da ditadura militar no Brasil os idealizadores daquela manifestação bárbara de desordem pública.Eu pensei, então, que talvez os militares da conspiração estivessem reeditando os episódios de violência que surgiam do nada de tempos em tempos para respaldar a permanência deles no poder por mais de duas décadas. Os governos dos generais do Exército de então justificavam assim o prolongamento do governo de opressão e sem direitos democráticos, devido às desordens sociais, que pelo visto eram articuladas e promovidas por eles mesmos.
De 1993 a 1996 eu fiz um trabalho de Relações Públicas para os militares brasileiros, a fim de garantir transição do processo democrático e evitar que um revanchismo da sociedade civil atingisse aos militares da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Apesar da alta dificuldade da missão, por algum motivo que considero milagroso, eu consegui não só que os militares fossem vistos com bons olhos pela sociedade brasileira, como até que eles pudessem ter aspirações de participação política atendidas como candidatos ao parlamento nas eleições de 1994.
Contudo, ao ver a balbúrdia daquele populacho 29 anos depois, destruindo tudo que representasse o Estado Democrático de Direito Brasileiro, eu só tinha no meu pensamento o arrependimento por ter confiado minha boa fé a quem não mereceria nem mesmo a minha mais ínfima consideração. Eu inadvertidamente e ingenuamente fora manipulada pelos militares e ajudara a criar um monstro!
A sabedoria popular bem diz que o inferno está cheio de boas intenções, e eu posso dizer que isso é de uma verdade absoluta. O que eu testemunhei naquele domingo, mudou o meu proceder totalmente. Eu senti uma desilusão tão grande dentro de mim que não tenho palavras para descrever. Talvez, porque eu tivesse pressentido desde a vitória de Lula nas urnas em novembro de 2022, que algo podre estava sendo tramado nos bastidores. Naquele Natal eu já estava muito triste por perdas emocionais por conta de mais um abuso de minha boa fé, pois, até então, era meu princípio acreditar nas pessoas até prova ao contrário, por conta da boa e velha culpa católica que não saía de mim, e decidi que era preciso romper com essa atitude de vez, para poder ser feliz como desejava ser. De tanto desgosto, pela primeira vez, eu privei-me de decorar a minha árvore de Natal, adotando uma atitude estóica sabática frente ao sofrimento. Porém, eu estava de prontidão à espera de que algo ruim viesse a acontecer e não fui desapontada nisto, pois só desapontava-me na expectativa de coisas boas. Mas, na esteira do males ocorreu o menor, as perdas materiais foram grandes e eu agradeci por ninguém ter saído ferido, só os vândalos que foram presos merecidamente pela ferida aberta na democracia brasileira.
Desde este triste episódio anti-democrático o Brasil tem vivido num embate constante contra as forças da extrema-direita anti-democráticas, e tem sido um tempo muito extenuante e sem paz. Luta-se sem trégua contra a adversidade causada por esses sem consciência todos os dias, que não entendem de modo algum que não é porque se pode fazer algo que se deva fazer, e que cidadania é feita de deveres e obrigações com a sociedade e que para viver-se coletivamente é preciso aceitar o contrato social estabelecido, ou seja, as regras do jogo e não virar o tabuleiro, e, sim, ter responsabilidade.
No Brasil ao contrário do que aconteceu com os invasores do Capitólio em 2021, os conspiradores contra a democracia aqui foram julgados, condenados e presos em 2025. Tal sucesso da justiça brasileira contou com o devido apoio da maioria da população brasileira, que considerou que o acontecido no dia 8 de janeiro de 2023 foi uma tentativa de golpe contra a Estado de Direito Democrático do Brasil, e que foi um crime praticado por uma minoria descontente e rancorosa da população brasileira.
Nós vivemos tempos difíceis em que os governos democráticos em todo o mundo estão sofrendo ataques de poderosos, que querem impor através do uso de um poder descomunal acumulado por uma elite enriquecida desde o início do século XXI, circunstâncias disruptivas com a democracia e o multilateralismo, para justificar o governo dos mais poderosos, de uma elite de bilionários que auto se proclama saber o que é melhor, para eles, e não para todos.
O Brasil como muitos outros países terão suas eleições democráticas neste ano de 2026. Serão eleições muito difíceis pois a massa de eleitores sofrerá forte pressão nas redes sociais, devido ao uso e abuso da Inteligência Artificial manipulando imagens, vozes e argumentos. Será, pois, um desafio para a massa mediana e abaixo da média distinguir entre a realidade e a mentira ilusória.
No Brasil a democracia passará por uma prova de fogo nunca antes imaginada, isto porque os brasileiros possuem a presença mais ativo nas redes sociais do planeta, resta saber se eles terão discernimento para compreender que o governo do povo, para o povo e pelo povo se chama democracia, e que qualquer outra forma de governo, especialmente aquele do “porrete” ou do “big stick”, condenará eles à servidão e à desigualdade social, perda de direitos e inclusive à perda da cidadania, e esse tipo de governo é de longe o mais indigno de todos governos.
Como bem disse Winston Churchill em seu discurso na Câmara dos Comuns em 11 de novembro de 1947:
"Muitas formas de Governo foram experimentadas, e serão experimentadas, neste mundo de pecado e miséria. Ninguém finge que a democracia é perfeita ou infalível. Na verdade, já se disse que a democracia é a pior forma de Governo, exceto por todas as outras formas que foram tentadas de tempos em tempos. “
BRASILEIROS E BRASILEIRAS NÃO SE ESQUEÇAM DISSO! 🇧🇷
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