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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O SONHO ACABOU

 O SONHO ACABOU


BIA BOTANA



Passados 87 anos da fundação dos Estados Unidos, a guerra fratricida entre as antigas colônias, a chamada Guerra de Secessão (1861-1865), motivada por interesses econômicos divergentes entre proprietários rurais escravagistas sulistas e comerciantes e industriais da nova elite burguesa nortista, chegava ao fim com a batalha de Gettysburg, na Pensilvânia, deixando uma baixa assomada de ambos os lados de mais de 50 mil mortos. O 16° presidente dos EUA, o republicano Abraham Lincoln (1809-1865), disse em seu histórico discurso à inauguração do Cemitério de Gettysburg no dia 19 de novembro de 1863:


“ (…) Antes, cumpre-nos a nós, os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente — que estes mortos veneráveis nos inspirem a uma maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção — que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da Terra.”


Infelizmente o sonho democrático acabou sem que nós tivéssemos dado conta de que o ideal democrático estava sendo enterrado vivo desde cem anos atrás, e só resta a nós os vivos colocar sua lápide escrita: “Aqui jaz o sonho democrático de um governo do povo, pelo povo e para o povo.”


O século XIX foi marcado pela Revolução Industrial iniciada na Inglaterra e pelo progresso tecnológico decorrente, que transfigurariam a cultura ocidental, deixando para trás o sombrio tempo das trevas, e a luz dos ideais que fez resplandecer as mentes dando-lhes um renovado conhecimento, transportando a um novo patamar da civilização humana, de fato passou a iluminar com a luz elétrica uma nova era civilizatória humana. 


O termo tecnocracia deriva das palavras gregas tekhne, que pode significar técnica, destreza, habilidade ou aptidão. Ao passo que kratos, designa governo. A ideia de que os mais aptos seriam os mais adequados ao exercício de um governo respalda a ideia de que os melhores são os mais capazes para o exercício da liderança da sociedade humana. 


No início do século XX, o renomado cientista Albert Einstein discursou na Aliança Técnica, composta por diversos cientistas, dizendo:  "Nós estamos no alvorecer de um novo mundo. Os cientistas têm dado aos homens poderes consideráveis . Os políticos se aproveitaram deles. O mundo deve escolher entre a desolação indizível de mecanização para o lucro ou conquista, ou a juventude vigorosa da ciência e da técnica para atender às necessidades sociais de uma nova civilização". 


O abismo que se abriu entre os conceitos de eficiência dos governos e as aspirações do povo só fez aumentar desde então. A ideia de uma engrenagem de Estado apartada da participação da opinião popular foi razão principal das duas guerras mundiais sanguinárias do século XX e duas Revoluções populares violentas na Rússia e na China, tudo em nome da defesa da liberdade democrática, pela qual justificava o exercício da opressão com o uso do poder arbitrário para reprimir as massas populares e garantir o status quo das elites dos “melhores” da ocasião. Na demonstração inquestionável de que o poder exercido SOBRE os outros de origem autoritária sempre levaria a melhor sobre o idealizado governo COM os outros de idealização democrática. 


Da tecnocracia, sobretudo com o neoliberalismo respaldado nos técnicos em Economia, os novos idealizadores de um Estado democrático enxuto e economicamente eficiente, sem preocupação com as condições sociais da população e do pensamento democrático de inclusão social de representatividade política de todas camadas da sociedade passaram a ser desprezadas, e introduziu a medindo de “qualidade” de um indivíduo levando em conta a contribuição produtiva para o crescimento econômico da sociedade, estabelecendo uma sociedade de “mérito pessoal”, muitas vezes questionável quanto ao mérito atribuído, pois equações econômicas geralmente o fator humano e seu mérito passou a ser desconsiderado a favor de resultados puramente matemáticos, considerando que a matemática não mente, mas os números podem ser manipulados.


Chegou-se ao final do século XX com um crescimento exponencial da desigualdade de renda entre os indivíduos, um marcante crescimento da pobreza devido ao bom e velho endividamento das famílias de classe média que caiam para a linha da pobreza e dos pobres que passaram a estar abaixo dela e se tornavam miseráveis. Foi nessa situação lastimável de desigualdade, separando a maioria empobrecida dos que viviam nos bolsões de riqueza do mundo, e usufruíam por isso de melhores condições e oportunidades, que emergiu uma nova forma de governo exercendo seu poder de maneira subliminar, mas explorando a boa fė de todos: a bancocracia


Bancocracia é um termo que descreve a influência excessiva e muitas vezes abusiva das instituições bancárias e financeiras na formulação de políticas públicas e na administração de um Estado, podendo até significar um sistema onde esses bancos governam a sociedade, ditando regras que beneficiam seus próprios interesses, como resgates, juros altos e privilégios. 


Desde o século XIV os banqueiros das Repúblicas de Veneza e de Florença começaram a exercer grande influência na sociedade. Os bancos exercem desde então grande poder sobre a economia e o governo, moldando leis e regulamentações para favorecer seus interesses. Já no século XIX pode-se observar a intervenção dos banqueiros e de suas instituições financeiras no controle das decisões econômicas dos Estados, muitas vezes em detrimento de outras classes sociais menos privilegiadas. 


Após a Segunda Guerra Mundial sorrateiramente a elite econômica-financeira bancária promoveu a transição de um governo democrático "do povo, para o povo e pelo povo” para um governo "dos ricos e poderosos", onde os interesses financeiros passaram a se sobrepor aos interesses públicos. 


No século XXI, a bancocracia foi claramente exposta quando frequentemente passou a ser apontada como a causa ou o beneficiário de intervenções estatais durante crises, como a de 2008, onde bancos foram salvos com dinheiro público. Então, o termo bancocracia passou a ser usado para analisar a forte influência dos bancos e do sistema financeiro nas decisões políticas e econômicas dos países. O uso do dinheiro público para salvaguardar o poder econômico dos bancos privados acabou por se traduzir em poder político, dominando a esfera pública e as decisões do Estado. 


O poder da bancocracia passou a ser aparelhado com o sistema digital de comunicação que forneceu aplicativos financeiros a partir de 2016 com o uso de celulares facilitando não só as transações bancárias, mas dificultando o controle destas transações pelos órgãos controladores econômico-financeiro. O lucro dos bancos passou a ser extraordinários. Criou-se uma economia digital adotando-se startups, as chamadas empresas inovadoras, que buscam um modelo de negócio repetível e escalável, operando sob extrema incerteza para resolver um problema de mercado de forma disruptiva, muitas vezes usando tecnologia para crescer rapidamente e impactar um grande número de pessoas sem aumentar os custos proporcionalmente. Elas são caracterizadas pela inovação, escalabilidade (crescer muito sem custos proporcionais), repetibilidade (produto/serviço padronizado) e um contexto de incerteza, buscando validação de mercado e, eventualmente, investidores para acelerar seu crescimento. Como por exemplo as Bets de apostas, o Uber, a Netflix, o NuBank e tantas outras. 


No decorrer dos primeiros vinte e cinco anos do século XXI, a bancocracia com as ferramentas digitais formou uma nova forma de governo: a plutocracia digital. 


O conceito de plutocracia é um ideário da sociologia, pois até agora não existiu em tese um governo de plutocratas. Se considera teoricamente que a plutocracia é o governo exercido ou influenciado pela classe mais rica de uma população. A palavra plutocracia vem do grego e é a junção de “plouto” – riqueza e “kratos” – governo, ou seja é o oposto a democracia, que é o “governo do povo”, pois seria o "governo dos ricos". 


De maneira diferente de outros sistemas de governo exercidos por elites como a aristocracia e oligarquia, os plutocratas não precisam estar necessariamente dentro do governo para exercer o poder.

Através de grupos de pressão, os plutocratas garantem leis favoráveis aos seus negócios. Muitas vezes, essas leis podem ser prejudiciais a outras pessoas. Os plutocratas raramente eram figuras de proa e apareciam sob os holofotes, eles agiam nos bastidores, pagando representantes políticos para agirem segundo seus interesses, e são eles os verdadeiros donos de grupos de Mídia, são os donos do sistema financeiro e exploram este ao seu bel prazer. Os plutocratas que antes andavam nas sombras se apresentaram no palco mundial na posse do novo presidente norte-americano Donald Trump na cerimônia histórica de 20 de janeiro de 2025. 


As características da plutocracia são comumente descritas como: concentração de poder, aumento da desigualdade social, engessamento da mobilidade social, domínio sobre o processo de aprovação de leis que favoreça seus interesses em detrimento dos interesses de classes inferiores, podendo chegar ao uso de violência ou leis coercitivas para garantir seu poder sobre territórios e populações de interesses.


“Vários estudiosos afirmam que agora estamos vivendo a plutocracia financeira desde a crise de 2008.

Desta forma, estaríamos passando por um período onde os donos de bancos e entidades financeiras ditam as leis e normas para garantir o crescimento da sua própria riqueza.”, como bem analisa Juliana Bezerra, Bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.


Infelizmente, há uma ilusão bem urdida para que se acredite que os Estados democráticos contemporâneos do Ocidente, vivem ainda num Estado Democrático de Direito, mas a nova realidade está se impondo e muitos democratas como eu abandonam o estado de negação para encarar que não está se vivendo mais uma crise democrática, mas que a democracia desapareceu, engolida pelos algoritmos da era digital. E que an Internet que foi criada como um instrumento da democracia resultará na causa de sua extinção. 


No último sábado, dia 3 de janeiro de 2026, após ouvir o pronunciamento do Sr. Donald Trump a justificar sua intervenção militar na Venezuela para na verdade transformar o país Sul-americano num protetorado dos Estados Unidos, causou perplexidade ao destituir a ditadura de esquerda de décadas não expressar em nenhum momento  a restauração na Venezuela de um Estado Democrático de Direito ao povo sofrido venezuelano. Outrossim, o presidente norte-americano afirmou com veemência que estava tomando posse das reservas petrodólares venezuelanas por direito dos Estados Unidos, abrindo um  precedente perigoso e assustador.


A questionável intervenção militar norte-americana na Venezuela deu-me a certeza de que a riqueza petrolífera da Venezuela foi o grande motivo da ação militar questionável do governo norte-americano; que  usou da narrativa das questões de narcotráfico e do governo ditatorial venezuelano como justificativas que não se sustentam de pé.


A situação da Venezuela como “protetorado” dos Estados Unidos será confirmada nos próximos dias. O que torna evidente que um governo mundial na forma de uma plutocracia digital está se instalou numa velocidade vertiginosa e o fim da democracia contemporânea é já uma realidade para quem consegue ver além da ilusão criada pelos meios de comunicação e que aparelhou digitalmente as nossas vidas, tendo nossas economias e finanças capturadas por aplicativos e nossa representação política colocada em fantoches criados pela engrenagem estabelecidas à nossa revelia. 


O que era uma expectativa futura de ficção é doravante a realidade presente, que por comodismo de alguns e ganância de outros aconteceu. 


Se comprova historicamente mais uma vez que a democracia, que iguala o direito entre os membros de uma sociedade, não é própria da natureza humana, e por isso exige dos membros da sociedade democrática um alto nível de educação e intelectualidade, a um patamar cultural tão alto que raramente pode ser alcançado por um povo. Mais uma vez a mediocridade saiu-se vitoriosa. Muito mais de mil setecentos anos se passaram entre a concepção da democracia em Atenas (V a.C.) e sua extinção em Roma (I a.C), e seu ressurgimento no século XVIII da nossa era. não logrando em perdurar até este século XXI. Felizes os que viveram o sonho democrático, legaram às gerações futuras um sonho para sonhar, um sonho que só pode ser realizado por seres humanos com grandeza de alma. 


Sempre restará uma esperança quando se tem fé, mesmo a fé quando pequena pode iluminar a mais tenebrosa escuridão. Pode-se perder tudo, e tendo tudo perdido, bem-aventurado será quem não perder sua fé. 

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