PLUTOCRACIA DIGITAL e o fim da Democracia Contemporânea.
“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”
— Eduardo Alves da Costa, "No Caminho, com Maiakóvski".
Quem já foi oprimido pela engrenagem de um Estado autocrática sabe que o poema de Eduardo Alves da Costa, poeta e escritor brasileiro, que estará fazendo 90 anos no próximo dia 6 de março, que mereceria de fato estar na Academia Brasileira de Letras e não está, só por ter escrito este poema, que é a expressão de uma dura verdade com belas palavras. E, por isso, seu poema é inesquecível.
O ser humano é um animal coletivo, que se agrupa para garantir sua sobrevivência e perpetuar sua espécie. É da natureza humana se ajuntar em torno de indivíduos mais fortes e capazes, e é deste grupo que se tem a origem do “líder”, aquele que por sua competência é capaz de dar ao grupo uma organização, do mesmo modo que se pode observar que acontece em relação a uma matilha de lobos, e talvez seja por tal semelhança que espécies caninas e humanas estabeleceram uma relação tão íntima quanto longeva. O mesmo se deu com a espécie equina, pois os cavalos também são animais coletivos e vivem em bandos, e como os humanos e os lobos possuem um líder que determina o destino da manada. Diferente dos insetos coletivos como abelhas, vespas, formigas e cupins que possuem estruturas hierárquicas rigorosas, que impedem mudanças de classes atributivas funcionais, os animais mamíferos quando vivem em bando estão sujeitos a constantes disputas de liderança a fim de garantir que o mais forte esteja no comando.
Durante os primeiros milênios da história humana se verifica que a liderança dos grupos humanos obedece seu instinto animal de sobrevivência e preservação de espécie e o mais apto entre a casta dos mais fortes exercerá a liderança e será honrado com um título honorífico que o coloca acima de todos no grupo, para ser reconhecido por seu mérito tal como os leões possuem jubas, o líder humano usará uma espécie de cobertura na cabeça feita de atributos de um animal que se sinta representado e posteriormente com a evolução cultural usará uma espécie de halo para representar a luz natural como a do sol ou da lua, esta dará origem à coroa.
Foi assim por muitos e muitos anos da civilização humana, até que um dia um povo mediterrâneo chamado jônio povoou uma região peninsular, a qual deram o nome de Ática, e o mar que a banhava chamaram de mar Jônio. Ainda que possuísse um solo pouco fértil, a Ática era notável por suas riquezas minerais. Durante o século X a.C. a agricultura desempenhou grande papel com as culturas de oliva, de vinha e de cereais.
Na medida que foi estabelecida a propriedade privada na região da Ática devido às áreas de cultivo agrícola, surgiu uma sociedade de grandes e pequenos proprietários, trabalhadores assalariados e a prática da escravidão por dívidas não pagas. O agrupamento deu desenvolvimento a uma cidade tribal, a polis, que foi chamada de Atenas.
A partir do século VIII a.C. a condição geográfica da península da região Ática favoreceu ao aparecimento notável de portos, que propiciaram um grande desenvolvimento comercial com a Costa da Ásia Menor e com a regiões costeiras do Mar Negro. Na medida que a atividade comercial crescia, a produção de mercadorias se expandia desde panos, objetos de metal e cerâmica, velas e barcos. comércio de azeite e cereais. E logo Atenas se tornou a cidade mais desenvolvida do mundo antigo. Foi quando o progresso comercial e o aumento de riquezas deu estrutura à sociedade com a formação de classes sociais.
As melhores e maiores terras da Ática eram propriedades dos líderes fundadores e seus descendentes, que formavam a classe dominante dos eupátridas, “os bem nascidos”. Os agregados a estes por parentesco distante eram os pequenos proprietários, chamados de georgos, que com o desenvolvimento comercial sofriam severas dificuldades por não aguentar a concorrência dos produtos trazidos do exterior pelos comerciantes, e caiam num processo de endividamento crescente que geralmente terminava pela perda das suas pequenas propriedades e mesmo da sua condição de homens livres, e acabavam escravizadas por dívidas como era a lei.
Os comerciantes eram descendentes justo desta camada mais popular de assalariados e ex-pequenos proprietários, de origem empobrecida que começaram a acumular grandes fortunas com o comércio de manufaturas e produtos agrícolas, e foram chamados de demiurgos, os “novos ricos”. Os demiurgos apesar de toda riqueza eram inferiorizados do ponto de vista social e político. Foram justamente os demiurgos que em determinado momento lideraram as camadas populares com o objetivo de confrontar o poder da Aristocracia (do grego aristos , “melhores", e kratas, "poder". ou seja, o “poder dos melhores”, da elite tradicional dos eupátrias, que possuíam privilégios hereditários baseados em nascimento, sangue e riqueza, sendo considerados moral e intelectualmente superiores para governar, e assim a monarquia ateniense deu lugar a uma nova forma de governo sendo exercido pela Aristocracia formada pelo Areópago (Assembleia dos Eupátrias, ou da nobreza) e pelos Arcontes, magistrados supremos, responsáveis por funções políticas e judiciárias, que passaram a exercer o poder executivo na cidade. Foi criada também a Assembleia Popular, dos Demos, a chamada Eclesia, que possuía, no momento de sua criação reduzidos poderes, mas isto viria a mudar.
Em seu chamado período arcaico, do século VII a VI a.C., Atenas viveu um período de lutas sociais decorrente da união crescente das camadas populares, o Demos (povo), que l cujos líderes chiavam-se demiurgos. O Demos estava em constantes confrontos com a Aristocracia.
Em 621 a.C. a Aristocracia indo contra as pretenções do Demos de estabelecer-se no governo, e implantar seu governo ao qual chamavam de DEMOCRACIA, criou um código de leis criado pelo legislador chamado Dracon. As leis draconianas como ficaram conhecidas representaram um progresso pois eram escritas e ficavam independentes da vontade da elite dos eupátrias, que tinham estabelecido uma tradição oral de leis. Contudo, no novo Código Draconiano a pena de morte foi amplamente utilizada, até pelo roubo de um pedaço de pão era aplicada, pois o objetivo era colocar um fim às revoltas do Demos, mas quanto mais o Demos era reprimido mais fortes eram ainda as revoltas.
Foi no tempo de outro estadista e legislador da aristocracia de nome Sòlon, que foi dado à Eclesia maior fortalecimento político. Sob o comando de Sólon, em 594 foi redigida o que se pode chamar a primeira Constituição Ateniense.
Mas, a continuidade das lutas democráticas fez surgir no meio do Demos chefes populares que foram chamados de TIRANOS, que designava um grande líder, um campeão das causas do povo. Em 546 a.C. com forte apoio do Demos, o tirano Psístrato, parente de Sólon, tomou o poder através de um golpe. Psístrato durante o seu governo confiscou e distribuiu as terras dos aristocratas, fazendo uma reforma agrária em Ática. Empréstimos foram concedidos aos proprietários rurais, dívidas foram negociadas. Obras como templos, portos e canais foram realizadas aumentando o emprego de mão de obra assalariada. O comércio foi amplamente incentivado atingindo um desenvolvimento nunca antes visto.
Psístrato governou Atenas até a sua morte em 527 a.C., quando foi sucedido por seu filho primogênito de 45 anos, Hípias, o qual foi afastado do poder em 510 a.C. e em seu lugar foi colocado como tirano de Atenas, Clístenes, também aristocrata mas líder do Demos. Clístenes foi responsável pela reforma da Constituição em 508 a.C. e foi por isso considerado como um dos país da Democracia de Atenas. Clístenes durante seu governo aumentou a divisão representativa de Atenas, de quatro para dez demos, com um comando militar cada uma e fornecia através de sorteio 50 representantes para o novo Conselho dos 500 (chamado Bulé), que passou a ser o órgão mais importante do governo democrático, uma vez que elaborava os projetos de lei e controlava a administração. Já a Assembleia Popular (Eclesia) discutia, podendo aprovar ou não as decisões do Conselho dos 500.
Um dos objetivos básicos das reformas de Clístenes foi ampliar a participação diversificada dos cidadãos na vida político-administrativa da cidade criando algo de seis mil cargos públicos administrativos sorteados a qualquer cidadão. Nesta épocas população ateniense era de 400 mil habitantes, destes o número de cidadãos elegíveis chegava a 40 mil, os restantes eram mulheres, crianças, estrangeiros e escravos excluídos de qualquer participação política. Clístenes também criou uma maneira de defender a democracia de qualquer cidadão que atentasse contra ela, o acusado sendo julgado de antidemocrático era condenado ao ostracismo, um exílio por dez anos votado pelos cidadãos.
As reformas democráticas proporcionaram um longo tempo de paz e coesão social e política à Atenas. E sem dúvida foi o que permitiu o enfrentamento e defesa de Atenas contra os avanços imperialistas persas no século IV a.C.
A paz com os persas foi assinada em 448 a.C., e o interlúdio entre o Partido Aristocrata e o Partido Popular (Demos) chegou ao fim e os embates políticos foram retomados, e na situação adversa o respeitado general Péricles (495 - 429 a.C.) com o apoio do Demos e inclusive dos aristocratas ascendeu ao poder, como o maior líder de Atenas do século V a.C.. O governo de Péricles teve nos seus primeiros anos uma prosperidade incomum, fazendo Atenas viver sua idade de ouro, com um embelezamento trazido pela proteção às artes e aos ofícios. Mas, o final do chamado Século de Pericles chegou de maneira abrupta, a brilhante civilização ateniense foi solapada pela guerra fratricida entre Atenas e Esparta. Pois os espartanos viam como provocação a intenção de Atenas estabelecer seu modelo democrático para ser adotado por outras cidades gregas. Já Esparta buscava manter a tradição dos governos aristocráticos em todo o mundo grego. E a razão imediata para a chamada Guerra do Peloponeso (431-401 a.C.) foi a disputa de rotas comerciais que levavam à Itália entre Atenas e Corinto, que era protegida por Esparta.
Nos primeiros anos da guerra as frotas atenienses atacaram com sucesso a costa da península do Peloponeso. Todavia, as tropas espartanas logo marcharam devastando a península de Ática, levando os camponeses a fugirem para dentro das muralhas de Atenas. O superpovoamento da cidade tão repentino provocou um surto de peste, que fez sucumbir o próprio Péricles em 429 a.C..
Em 405 a.C. a frota ateniense perdeu sua última batalha marítima para os espartanos. Com a ajuda de Esparta a aristocracia ateniense estabeleceu o governo dos trinta tiranos contrários à democracia, dando inicio ao processo de extinção das conquistas democráticas. A partir de então o mundo grego se enfraqueceu por seguidas disputas internas e de tal maneira se fragmentou que foi fácil aos macedônios ocuparem todo território helênico.
Em resumo, a democracia ateniense foi a duras penas conquistada durante um século, mas a partir de sua instituição em 508 a.C não perdurou mais de um século. O que comprova que a ideia de poder pessoal político humano é por natureza mais afeito ao exercício do poder de um líder sobre os demais, do que uma força que seja criada entre seus indivíduos, ou seja, um poder político alcançado com outras pessoas. A democracia pode-se dizer que é um governo que se exerce com o povo e não sobre o povo, antepondo-se ao governo da elite dos melhores comum às monarquias históricas da civilização humana.
O comércio ateniense deu origem a várias colônias gregas pelas costas do mar Mediterrâneo, especialmente ao Sul da península Itálica, o meridional peninsular conhecido historicamente como Magna Grécia, abrangendo regiões como Calábria, Apúlia e Campânia, o "dedo" e "salto da bota" da península.
Praticamente ao centro peninsular itálico separando sua região meridional (ao Sul) da região setentrional (ao Norte), próximo a foz do rio Tibre no Mar Tirreno, ao pé do monte Paladino, ergueu-se o reino de Roma, com imigrantes descendentes da antiga cidade de Tróia, próximo ao estreito dos Dardanelos (atual Turquia). Tal como ocorreu na península de Ática, a formação do reino se deu com base na agricultura e no pastoreio, tendo o comércio inicialmente reduzida importância. A estratificação social se deu a partir dos proprietários das melhores terras, que se diziam descendentes das famílias fundadoras de Roma, cujo chefe era chamado de pater, possuidor da mais irrestrita autoridade sobre os demais membros da família. Era comum que as famílias se reunissem num clã, chamado gens, sob o poder de um único pater. O conjunto dos gens e seus membros formava a elite dominante chamada de “patrícios” (patrici) descendentes “dos pais fundadores”. Abaixo dos patrícios, tinha a numerosa classe dos “plebeus” (plebs) do povo em geral, constituída de pessoas sem ancestrais nos gens, podiam ser possuidores de pequenas propriedades rurais e ter atividades artesanais e comerciais. A plebe não possuía direitos políticos, não podiam usar terras públicas, nem casar-se com indivíduos patrícios. Contudo, havia os chamados clientes que tinham relação com os patrícios prestando serviços, recebendo em troca proteção econômica, social e jurídica. A inferioridade social e política dessa camada de plebeus era a ameaça de escravidão por dívidas, que na época monarquista a escravidão se dava de maneira pouco numerosa. Os primeiros reis de Roma, eram patrícios e exerciam poder político, funções de chefes militares, sacerdotes supremos e juízes. Eram aconselhados por duas assembleias legislativas: o Senado, com os chefes das famílias patrícias, e a Curiata, que reunia as 30 cúrias formadas pelos representantes das famílias da cidade de Roma.
A História é um estudo que geralmente tende a separar o progresso civilizatório de um povo de suas relações externas com outras civilizações, o que ao meu ver é um absurdo, pois parece que não havia comunicação entre os povos da antiguidade e não ocorria influência entre eles. Do mesmo modo que hoje a notícia voava, fosse por conta do deus Hermes, o arauto dos deuses gregos, o fofoqueiro de plantão, ou do deus Mercúrio dos romanos. De modo que em termos de influência histórica desconsiderar que o reboliço das disputas democráticas gregas não tenha chegado aos ouvidos da plebe romana é uma tentativa ridícula de reescrever a história para dar aos romanos a primazia da criação de sua Res Pública Romana, onde “res pública” quer dizer “coisa pública” ou “coisa do povo”, hoje dita REPÚBLICA, que na Roma Antiga, designava o bem comum e a gestão da coletividade, o oposto do privado.
Tarquínio, o Soberbo, foi o sétimo e último rei de Roma. Desde que Romulo matou seu irmão gêmeo Remo, e tornara-se primeiro rei de Roma, seguiu-se três reis patrícios e depois quando Roma foi dominada pelos etruscos foram mais três, os Tarquínios. O Siberbo subiu ao trono de Roma em 535 a.C. e os patrícios durante seu reinado procuraram fazer uma aliança política com os plebeus conspirando para a derrubada da monarquia. A oportunidade apareceu quando o filho do rei violentou uma jovem casta aristocrata de nome Lucrécia e patrícios e plebeus movidos de indignação derrubaram a monarquia, e em 509 a.C. fundaram a República Romana, um sistema de governo com dois cônsules eleitos anualmente pelos “cidadãos” romanos e aconselhados pelo Senado, tendo como lema “O Senado e o Povo de Roma”. Com a proclamação da República, o Senado, totalmente dominado pelos patrícios, passou a ser o principal órgão do governo, controlando a política interna e a externa e zelando pela integridade da religião e dos costumes.
Durante a República, em 494 a.C., a plebe se rebelou contra o patriciado e reunida no Monte Aventino ameaçou fundar uma nova cidade, a secessão traria imenso prejuízo comercial, pois a plebe não só dominava o comércio como o exército. A negociação deu origem a criação do cargo político administrativo de tribuno da plebe. Os tribunos passaram a ser os responsáveis pela defesa dos plebeus contra as arbitrariedades dos magistrados patrícios. Foi pela emprego de leis que a plebe conquistou vitórias consecutivas, em 451 a.C. a plebe conseguiu que as leis de Roma fossem escritas e colocadas no Fórum, em praça pública. Em 445 a.C. uma nova lei permitiu o casamento entre plebeus e patrícios. Depois viriam outras leis como a do fim da escravidão por dívidas e a utilização das terras públicas tanto por patrícios como plebeus em pé de igualdade. Foi criada a Assembleia da Plebe onde diversas leis aprovadas foram aceitas pelo Senado, e os plebeus conquistaram o acesso aos mais diversos cargos públicos. Apesar do Senado dominar a República, a melhora da condição social e política dos plebeus deu ao emergente Estado Romano uma estabilidade para promover seu processo de campanhas militares expansionistas de conquistas territoriais por toda orla mediterrânea e atravessando os Alpes alcançado terras europeias.
Apesar de efetivamente nunca ter se dado o fim da Republica Romana, por convenção se determina sua duração de 509 a.C. a 27 a.C quando Otaviano foi proclamado Augusto e estabeleceu o primeiro Império Romano.
Nos primeiros 200 anos da República. Roma expandiu seu território com conquistas e alianças da região central para a península itálica inteira. Estabeleceu sob a sua liderança a Confederação do Lácio abrangendo 10.000 km2 em 326 a.C., em 50 a.C. a área dominada por Roma era de 1.950.000 km2!
A era da República dominada pela elite patricia iniciada em 509 a.C., o que seria nostalgicamente chamada de Velha República consagrada no imaginário por um período de altos princípios de ética e de moral da sociedade romana, em que as reformas político-sociais se davam com o respaldo legal de magistrados. Os embates entre patrícios e plebeus eram resolvidos de maneira legal, marcando um período republicano legalista, que fortalecia o poder de quem possuía riqueza, fossem patrícios ou plebeus. Ao contrário do que se deu em Atenas, que promoveu a participação do povo de modo geral no governo, Roma sempre foi governada por uma República dos “Melhores”, os mais aptos governavam e
ponto. A estratificação social era baseada no poder econômico que permitia comprar o poder político e social.
De 397 a 387 a.C. a cidade de Roma foi tomada e incendiada em boa parte, sofreu saques com a invasão das na
hordas gaulesas. Apesar de ter expulsado os invasores a República Romana enfrentaria um processo caótico que marcaria o fim da era de governança dos patrícios em 367 a.C., e foi em meio a anarquia que Roma formou com as cidades do Lácio uma Confederação em 326 a.C.. Nessa Confederação, as cidades (polis) possuíam uma razoo independência quanto aos negócios internos, porém mantinham uma política externa unida a de Roma. Com o apoio da Confederação Roma impôs a sua influência por toda península itálica até 290 a.C. superando o período de anarquia que se instalara na República.
De 287 a 133 a.C. teve início o período da República da “Nova Nobreza”, com o crescente paixão por novas conquistas e expansão comercial formou-se uma nova aristocracia plebeus que em tudo se assemelhava a elite patrícia, mal alcançando um status social mais elevado esquecia de sua origem de pobreza, dando as costas às necessidades crescentes do plebeu médio que perdia suas parcas riquezas se afundando em dívidas e sobrecarregado com pesados impostos para patrocinar as guerras de conquistas além do que a nova elite republicana gostava de chamar de Mare Nostro, em referência às águas do Mar Mediterrâneo. Ao final de 100 a.C. a expansão Romana saiu de 800.000 km2 para assombrosos 1.209.000 km2. Quanto mais aumentava a conquista territorial tanto mais crescia a crise político-social na República Romana, que a partir de 134 a.C. entrou em grave crise que resultou na sua decadência para gloria da criação do Império Romano, com o governo de um Imperador. Comprovando a força instintiva humana que anseia por uma liderança forte com a qual possa se identificar de corpo, mente e alma, que lhe dê assim um propósito de existir, ao se espelhar em quem é o melhor entre os iguais.
É comprovado historicamente que a democracia que iguala o direito entre os membros de uma sociedade não é própria da natureza humana, e por isso exige de seus membros um alto nível de educação e intelectualidade, a um patamar cultural tão alto que raramente pode ser alcançado por um povo.
Muito tempo se passaria até se ouvir falar em democracia ou república. Só se falaria a respeito disso após o advento do Humanismo trazendo o conhecimento da cultura greco-Romana clássica, que teve como consequência o movimento da Reforma religiosa e posteriormente fortaleceu os movimentos político-sociais da burguesia, a plebe do século XV d.C. no Ocidente. A República de Florença bem descrita por Maquiavel a República de Veneza famosa por sua elite de comerciantes seriam inspirações para um nobre inglês que perderá suas terras por dívidas acumuladas, e que se tornara terrivelmente protestante, um puritano que se negou a ir para a América e em vez disso, se candidatou em 1628, a uma vaga como membro do Parlamento, erguendo-se em defesa de uma democracia radical. Seu nome era Oliver Cromwell (1599-1658). Ele regozijou-se em 1649 com o regicídio praticado contra o rei Carlos I, em 1653 fundou a primeira república inglesa, chamada Commonwealth of England, em 1658 o que se deu o título de Protetor da Inglaterra estava morto por causa obscura, doze anos depois seu cadáver foi desenterrado enforcado em praça pública por 24 horas, posteriormente teve a cabeça decapitada enfiada numa estaca e exposta por ordem da monarquia descendente de Carlos I que fora restabelecido por seu filho Carlos II, e desde então nunca mais se ouviu falar em República ou democracia na Inglaterra, adotando-se um sistema híbrido de monarquia parlamentarista.
Todavia, o movimento Iluminista como o próprio nome quer dizer, trouxe luz para as aspirações populares das classes aprisionadas na severa estratificação social introduzida pelo sistema político-social romano com base no sistema jurídico romano nascido em 509 a.C. que sobrevivera por mais de 1.200 anos e que após o movimento da Reforma passou a ser frontalmente questionado pela classe de comerciantes burgueses enriquecidos e seus banqueiros.
Apesar do movimento Iluminista ter se iniciado em terras europeias, seria em razão das disputas comercias entre os reinos da França e da Inglaterra que as novas ideias desse movimento intelectual encontrariam solo fértil na colônia inglesa da América, onde travou-se uma guerra sangrenta entre os colonos americanos pela independência da coroa inglesa contando com forte e inquestionável apoio do Reino da França, de forma que em 4 de julho de 1776, as treze colônias inglesas da América reunidas se declararam independentes da Inglaterra e formaram em 1789 o novo país chamado de Estados Unidos da América, dando uma Constituição que fortalecia a criação de um Estado Federal fortalecido com a instituição de três poderes: o Executivo exercido por um Presidente e um Vice-presidente; o Legislativo exercido por representantes populares eleitos; e o Judiciário composto de magistrados indicados pelo poder Executivo e aprovados pelo Legislativo. E foi estás primeira democracia após a democracia ateniense.
Após a instalação e o efetivo reconhecimento de outros países europeus do novo país democrático norte-americano, os ideais democráticos passaram a se espalhar como uma praga, e a rebote o Reino da França foi destruído sob um olhar impassível e sem nenhuma misericórdia do Reino da Inglaterra pelo levante da plebe francesa que implantou uma República de terror em 1789. Desde então até 1815, a Europa foi sacudida violentamente pelos ideais democráticos.
Passados 87 anos da fundação dos Estados Unidos, a guerra fratricida entre as antigas colônias, a chamada Guerra de Secessão (1861-1865), motivada por interesses econômicos divergentes entre proprietários rurais escravagistas sulistas e comerciantes e industriais da nova elite burguesa nortista, chegava ao fim com a batalha de Gettysburg, na Pensilvânia, deixando uma baixa assomada de ambos os lados de mais de 50 mil mortos. O 16° presidente dos EUA, o republicano Abraham Lincoln (1809-1865), disse em seu histórico discurso à inauguração do Cemitério de Gettysburg no dia 19 de novembro de 1863:
“ (…) Antes, cumpre-nos a nós, os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente — que estes mortos veneráveis nos inspirem a uma maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção — que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da Terra.”
O século XIX foi marcado pela Revolução Industrial iniciada na Inglaterra e pelo progresso tecnológico decorrente, que transfigurariam a cultura ocidental, deixando para trás o sombrio tempo das trevas, e a luz dos ideais que fez resplandecer as mentes dando-lhes um renovado conhecimento, transportando a um novo patamar da civilização humana, de fato passou a iluminar com a luz elétrica uma nova era civilizatória humana.
O termo tecnocracia deriva das palavras gregas tekhne, que pode significar técnica, destreza, habilidade ou aptidão. Ao passo que kratos, designa governo. A ideia de que os mais aptos seriam os mais adequados ao exercício de um governo respalda a ideia de que os melhores são os mais capazes para o exercício da liderança da sociedade humana.
No início do século XX a Aliança Técnica, composta por diversos cientistas, da qual era membro Albert Einstein, em seu discurso em um dos encontros disse: "Nós estamos no alvorecer de um novo mundo. Os cientistas têm dado aos homens poderes consideráveis . Os políticos se aproveitaram deles. O mundo deve escolher entre a desolação indizível de mecanização para o lucro ou conquista, ou a juventude vigorosa da ciência e da técnica para atender às necessidades sociais de uma nova civilização".
O abismo que se abriu entre os conceitos de eficiência dos governos e a aspirações do povo só fez aumentar desde então. A ideia de uma engrenagem de Estado apartada da participação da opinião popular foi razão principal das duas guerras mundiais sanguinárias do século XX e duas Revoluções populares violentas na Rússia e na China, tudo em nome da defesa da liberdade democrática, pela qual justificava o exercício de opressão com o uso do poder arbitrário para reprimir as massas populares e garantir o status quo das elites dos “melhores” da ocasião. Na demonstração inquestionável de que o poder exercido SOBRE os outros de origem autoritária sempre levaria a melhor sobre o idealizado governo COM os outros de idealização democrática.
Da tecnocracia, sobretudo com o neoliberalismo respaldado nos técnicos em Economia, os novos idealizadores de um Estado democrático enxuto e economicamente eficiente, sem preocupação com o estado social da população, o pensamento democrático de inclusão social de representatividade política de todas camadas da sociedade passou a ser desprezada, medindo a “qualidade” de um indivíduo na medida de sua contribuição para o crescimento econômico da sociedade. Nas equações econômicas o fator humano passou a ser desconsiderado.
Chegou-se ao final do século XX com um crescimento exponencial da desigualdade de renda entre os indivíduos, um marcante crescimento da pobreza devido ao bom e velho endividamento das famílias de classe média que caiam para a linha da pobreza e dos pobres que passaram a estar abaixo dela e se tornavam miseráveis. Foi nessa situação lastimável. Ignorada pelos que viviam nos bolsões de riqueza e usufruíam por isso de melhores condições e oportunidades que emergiu uma nova forma de governo exercendo seu poder de maneira subliminar, mas explorando a boa fė de todos: a bancocracia.
Bancocracia é um termo que descreve a influência excessiva e muitas vezes abusiva das instituições bancárias e financeiras na formulação de políticas públicas e na administração de um Estado, podendo até significar um sistema onde esses bancos governam a sociedade, ditando regras que beneficiam seus próprios interesses, como resgates, juros altos e privilégios.
Desde o século XIV os banqueiros das Repúblicas de Veneza e de Florença começaram a exercer grande influência na sociedade. Os bancos exercem desde então grande poder sobre a economia e o governo, moldando leis e regulamentações para favorecer seus interesses. (Links ⬇️ em Referências)
Desde o século XIX pode-se observar a intervenção dos banqueiros e de suas instituições financeiras no controle das decisões econômicas dos Estados, muitas vezes em detrimento de outras classes sociais menos privilegiadas. Após a Segunda Guerra Mundial sorrateiramente a elite econômica-financeira bancária promoveu a transição de um governo democrático "do povo, para o povo e pelo povo” para um governo "dos ricos e poderosos", onde os interesses financeiros passaram a se sobrepor aos interesses públicos.
No século XXI, a bancocracia foi claramente exposta quando frequentemente passou a ser apontada como a causa ou o beneficiário de intervenções estatais durante crises, como a de 2008, onde bancos foram salvos com dinheiro público. Então, termo bancocracia passou a ser usado para analisar a forte influência dos bancos e do sistema financeiro nas decisões políticas e econômicas dos países. O uso do dinheiro público para salvaguardar o poder econômico dos bancos privados acabou por se traduzir em poder político, dominando a esfera pública e as decisões do Estado.
O poder da bancocracia passou a ser aparelhado com o sistema digital de comunicação que forneceram aplicativos financeiros a partir de 2016 com o uso de celulares facilitando não só as transações bancárias, mas dificultando o controle destas transações pelos órgãos controladores econômico-financeiro. O lucro dos bancos passaram a ser extraordinários. Criou-se uma economia digital com a criação de startups, empresas inovadoras, que buscam um modelo de negócio repetível e escalável, operando sob extrema incerteza para resolver um problema de mercado de forma disruptiva, muitas vezes usando tecnologia para crescer rapidamente e impactar um grande número de pessoas sem aumentar os custos proporcionalmente. Elas são caracterizadas pela inovação, escalabilidade (crescer muito sem custos proporcionais), repetibilidade (produto/serviço padronizado) e um contexto de incerteza, buscando validação de mercado e, eventualmente, investidores para acelerar seu crescimento. Como por exemplo as Bets de apostas, o Uber, a Netflix, o NuBank e tantas outras.
No decorrer dos primeiro quarto do século XXI, a bancocracia com as ferramentas digitais formou uma nova forma de governo: a plutocracia digital.
De maneira diferente de outros sistemas de governo exercidos por elites como a aristocracia e oligarquia, os plutocratas não precisam estar necessariamente dentro do governo para exercer o poder.
Através de grupos de pressão, os plutocratas garantem leis favoráveis aos seus negócios. Muitas vezes, essas leis podem ser prejudiciais a outras pessoas. Os plutocratas raramente são figuras de proa e aparecem sob os holofotes, eles agem nos bastidores, pagam representantes políticos para agirem segundo seus interesses, são os verdadeiros donos de grupos de Mídia, são os donos do sistema financeiro e exploram este ao seu bel prazer. Os plutocratas andam nas sombras e são eles os verdadeiros Senhores da Guerra, os líderes políticos são seus servos e dizem amém aos seus interesses específicos estratégicos.
As características da plutocracia são comumente descritas como: concentração de poder, aumento da desigualdade social, engessamento da mobilidade social, domínio sobre o processo de aprovação de leis que favoreça seus interesses em detrimento dos interesses de classes inferiores, podendo chegar ao uso de violência ou leis coercitivas para garantir seu poder sobre territórios e populações de interesses.
“Vários estudiosos afirmam que agora estamos vivendo a plutocracia financeira desde a crise de 2008.
Desta forma, estaríamos passando por um período onde os donos de bancos e entidades financeiras ditam as leis e normas para garantir o crescimento da sua própria riqueza.”, como bem analisa Juliana Bezerra, Bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.
Infelizmente, há uma ilusão bem urdida para que se acredite que os Estados democráticos contemporâneos do Ocidente, vivem num Estado Democrático de Direito. Os amantes da democracia como eu, lutam incansavelmente para que as palavras de Abraham Lincoln não sejam jamais esquecidas “que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da Terra.”
Mas, hoje, sábado, 3 de janeiro de 2026, após ouvir o pronunciamento do presidente dos Estados Unidos, o Sr. Donald Trump, justificando sua tomada da Venezuela a transformando num protetorado dos Estados Unidos, destituindo a ditadura de esquerda implantado há vinte anos, apesar de tantas ditaduras no mundo, sem mencionar a restauração de um Estado Democrático de Direito ao povo sofrido venezuelano, é a abertura de um precedente perigoso e assustador. O que mais me assombra é que em 1994, há mais de 30 anos, escrevi um artigo sobre uma questão surgida após a invasão do Haiti, com uma operação tática semelhante a realizada na madrugada deste sábado na Venezuela, para promover uma mudança de governo no pequeno país, só que daquela feita foi da lavra do presidente democrata norte-americano Bill Clinton. (Link ⬇️ em Referências)
Este episódio de hoje, deu-me uma certeza, primeiro que a riqueza petrolífera da Venezuela foi o grande motivo da ação militar questionável do governo norte-americano; segundo que as questões de narcotráfico e do governo ilegal ditatorial seriam questões menores, secundárias e meras desculpas.
A situação da Venezuela como “protetorado” dos Estados Unidos será confirmada nos próximos dias. O que torna evidente que um governo mundial na forma de uma plutocracia digital está sendo instalado numa velocidade vertiginosa e o fim da democracia contemporânea é já uma realidade para quem consegue ver além da ilusão criada pelos meios de comunicação e o aparelhamento digital das nossas vidas, tendo nossas economias e finanças capturadas por aplicativos e nossa representação política colocada em fantoches criados pela engrenagem estabelecidas a nossa revelia. Este é o futuro que nós permitimos acontecer, porque um dia deixamos que entrassem em nosso jardim para roubar uma flor. É a história de gregos e romanos a se repetir só que com outra roupagem… Quando vamos aprender com os erros do passado?
Referências
Bancocracia - Rui Tavares
20 de Abril de 2011
https://www.publico.pt/2011/04/20/jornal/bancocracia-21876971
"DEUS? SOU EU!" – OS TECELÕES: XI - OS BANQUEIROS
http://deussoueu.blogspot.com/2012/03/xi-os-banqueiros.html
"DEUS? SOU EU!" – OS TECELÕES: XVIII - JACOB FUGGER – O BANQUEIRO DO RENASCIMENTO
http://deussoueu.blogspot.com/2012/11/xviii-jacob-fugger-o-banqueiro-do.html
"DEUS? SOU EU!" – OS TECELÕES: XIX - JACOB FUGGER E O GLAMOUR DOS HABSBURG
http://deussoueu.blogspot.com/2017/01/xix-jacob-fugger-e-o-glamour-dos.html
Éric Toussaint: Cada vez mais Bancocracia - 04 de outubro 2015
https://www.esquerda.net/artigo/eric-toussaint-cada-vez-mais-bancocracia/39009
A bancocracia, a ditadura dos bancos - Praza Pública
Manuel Barbeitos - 23 de março de 2023
https://praza.gal/opinion/a-bancocracia-a-ditadura-dos-bancos
FREE THINKER - LIVRE PENSADORA: "GODNET" E A CENSURA NA INTERNET
http://bbfreethinker.blogspot.com/2012/09/godnet-e-censura-na-internet.html
BIA BOTANA' NEWS & OPINION: O FIM DO DIREITO A PRIVACIDADE
http://biabotananews.blogspot.com/2013/08/o-fim-do-direito-privacidade.html
ARQUIVO DA BIA BOTANA: LESA-PÁTRIA
http://arquivodabiabotana.blogspot.com/2026/01/lesa-patria.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário